quarta-feira, 16 de março de 2011

PUBLICADO NO BLOGGER DO FLÁVIO DE CASTRO....

Amigos, perdi!

Há quase três meses a Prefeitura vive a expectativa de uma reforma administrativa. Há quase três meses eu vivo a ameaça de uma reforma administrativa.

É possível viver um dia inteiro sob a certeza da morte ao entardecer. É impossível amanhecer, dia após dia, com a incerteza se vida alcança o pôr do sol. Sem cenários, não há projetos...

Tudo que soube da reforma administrativa, eu soube, infelizmente, pelos jornais. Por três meses, esperei, disciplinado, receber do prefeito, não justificativas, que ele não me deve, mas apenas o seu veredito. Não recebi. A identidade política se foi, a visão de mundo se desencontrou, as círculos de relações políticas se opuseram, mas antes que o que restou de respeito mútuo e fraterno também se esvaia eu decidi tomar a iniciativa de procurar o velho amigo e por as cartas na mesa.

Uma conversa pessoal entre amigos, ainda que amarga, guarda-se entre amigos.

A sua dimensão pública, porém, é pública. O prefeito segue determinado a me tirar o DLO. Alega fortes pressões e desgastes. Segue intencionado a me delegar uma Secretaria de Planejamento fortalecida, com novas e mais amplas atribuições gerenciais. Eu tenho plena convicção de que minha única contribuição ao governo é exatamente na política urbana, que inclui o DLO. Por outro lado, há tempos, eu não reúno capital político, numa equipe de governo que me é majoritariamente adversa, para desempenhar um papel de coordenação gerencial. Ainda que o prefeito entenda que sim; entre coisa e outra, não há opções reais.

Eu e minha equipe – naturalmente, aqueles que quiseram me acompanhar – deixamos o governo no próximo dia 31.

Pode parecer retórica, mas não é: os últimos três meses foram, talvez, os piores de minha vida. Eu vivo, hoje, o alívio pelo fim de uma infinita tormenta; alívio não maior do que a tristeza pelo insucesso.

Teimosamente, eu tenho convicção do que fiz. Posso ter errado, posso ter me perdido em um ou outro atalho, mas sei que o rumo do caminho percorrido está certo. Há dez anos, quando fui secretário pela primeira vez, ninguém falava em orçamento municipal. Três anos depois, o orçamento havia se tornado um tema candente. Ontem, ninguém dava valor a três letras: DLO. Hoje, é motivo de crise, de desgastes, de elogios e de apoios. Tornou-se um assunto sério. Sem mim e sem minha equipe, ele pode avançar, pode retroceder, mas tenho certeza: não volta a ser o órgão irrelevante que sempre foi.

Sei que se perdi, perdi na luta, não na omissão. Com minha equipe, defendi, com unhas e dentes, um novo modelo de desenvolvimento urbano e de ocupação territorial, com controle público rígido e conduta ética e igualitária. Defendi a modernização administrativa da Prefeitura e viabilizei a vinda do INDG. Iniciei a montagem de uma central de projetos. Negociei com a União o terreno da Rede Ferroviária para o Centro Administrativo Municipal. Desenvolvi um modelo de monitoramento das ações prioritárias de governo. Briguei muito pela redução das despesas de custeio, expansão da capacidade de investimento e maior focalização do orçamento. Em todas essas frentes, ainda acho que estava totalmente certo. Mas em todas elas, reconheço: não tive apoio político, lutei sozinho e perdi!

A política não comporta ilusões ou desilusões. A política não comporta gratidão, ingratidão ou mágoas. A política comporta saber ganhar e saber perder. Eu sei que perdi e sei perder!

Mas a política comporta também a indignação e o incessante desejo de mudança. Se, mais uma vez, a mudança não veio agora, virá à frente... Comporta o compromisso com o futuro. Comporta o sonho. Comporta a construção de novas identidades capazes de formar novas comunidades de sentidos e de valores. Comporta a utopia. Isso eu sei que não perdi...

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