TENETE-CORONEL REFORMADO NÃO ESCONDE QUE PODE
MENTIR EM PROCESSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
GUARUJÁ
(SP) - De bermuda e chinelos, com uma barriga que extrapola a barra da camiseta
branca e puída, o tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima nem de longe
lembra o homem da pomposa foto do Exército, o mesmo acusado pela presidente
Dilma Rousseff e por dezenas de presos políticos de torturas e abusos durante o
regime militar. Aos 76 anos e se dizendo "quase gagá", Lima ficou
trancado em seu apartamento, sozinho, esperando que os manifestantes do Levante
Popular da Juventude fizessem seu esculacho, na porta do prédio de classe média
onde mora no Guarujá, litoral paulista.
Alguns
vizinhos desceram dos apartamentos para ouvir os jovens gritando que, "sob
a aparência de um senhor aposentado, se esconde um monstro que assassinou
camaradas, trabalhadores e estudantes".
Relutante,
o militar da reserva acabou recebendo a reportagem em seu apartamento. Negou os
crimes de tortura e não escondeu que pode mentir no processo que sofre do
Ministério Público Federal, que o acusa de cometer crimes contra 20 pessoas,
entre eles três assassinatos. Lima conta que esteve com Dilma em três ocasiões
e que a então guerrilheira era "durona", mas não pegava em armas.
O
GLOBO: O que o sr. acha da manifestação desses jovens?
MAURÍCIO
LOPES LIMA: Acho um
besteróide. O Partido Comunista do Brasil e o Partido Comunista Brasileiro em
tempos passados tentaram revolucionar este país. Agora, pelo menos, eles estão
levando a garotada para a bagunça. O PCdoB levou a garotada para a Guerrilha do
Araguaia. Eles são os culpados, eles que fizeram a guerrilha. Nós cumprimos um
papel de quem reage.
O
sr. é processado pelo Ministério Público Federal pela morte de Virgílio Gomes
da Silva (o “Jonas”, da Aliança Libertadora Nacional-ALN). Qual a sua defesa?
LIMA: Eu não
estava lá. Foi no dia 29 de setembro e eu entrei na Oban (Operação
Bandeirantes) em 5 de outubro de 1969.
Ele
já estava desaparecido?
LIMA: Ele
estava morto mesmo. Eu tive notícias, eu não sabia que era Virgílio, mas sabia
que um terrorista tinha morrido ali.
O
senhor é acusado de outros cinco desaparecimentos pelo MPF...
LIMA: Outros
cinco? Vocês ainda acreditam no Ministério Público Federal? Ele mente.
E há
denúncias de tortura (são 20 acusações)...
LIMA: Existe
uma coisa que é o livro do Frei Betto, o “Diário de Fernando”. Ele demonstra a
força do coletivo: tinha o coletivo da cela, o coletivo da ala. E o que o
coletivo assumia passava a ser verdade. Quando chegava a parte do advogado, ele
já fazia de comum acordo com o que estava previsto no coletivo. Sobre a morte
do Virgílio? Eu não estava lá. Sobre a tortura da filha do Virgílio, eu não
estava lá.
O
senhor tem uma cópia da ficha da Dilma no Dops, aquela que dizem que é falsa.
Ela é falsa?
LIMA: Pode
ser. O Dops era uma organização que tinha vida própria. O Dops era uma coisa, a
OB (Oban) era uma coisa. Inclusive havia um conflito imenso entre o Dops e a
Oban. Motivo: (delegado) Fleury. Porque o Fleury queria fazer certas coisas que
nós não concordávamos. Fleury escondia informações. Fleury fazia o que queria.
E
disseram que ele ganhava um dinheiro também?
LIMA: O
problema de ganhar dinheiro depende da... eu não ganhei nenhum tostão. O
delegado eu não sei. Eu posso até ter certeza de que, ele era um homem que
frequentava a noite, mas eu não tenho como acusar.
O
sr. esteve em algum momento com a presidente Dilma?
LIMA: Eu tive
três momentos. O primeiro quando ela foi presa. Nós tínhamos a suposição de que
ela era a Dilma e não tínhamos certeza. Chegaram para mim e disseram “Maurício,
você tem o dossiê da Dilma?”. E eu: “tenho.”
O
que dizia esse dossiê?
LIMA: O nome,
o nascimento, o nome do amante (risos), o que ela era na organização etc.
E o
que ela era na organização?
LIMA: Ela era
amante de um dos dirigentes (ele se refere a Carlos Araújo, o "Max",
da VAR-Palmares). Mas ela tinha ação. Ela fazia uma ligação entre a cúpula e as
regionais. Disso eu não tenho dúvida.
Ela
pegou em armas?
LIMA: Não. Chegou aqui
um jornalista, me tentou de todas as maneiras dizer que a Dilma tinha pego em
armas. Mas eu digo: como é que eu vou dizer se eu tenho certeza que ela não
pegou.
Mas
aí ela já estava presa e o sr. precisava identificar se era ela mesmo?
LIMA: Eu
cheguei e falei: dona Dilma Vana Rousseff Linhares, a senhora nasceu em tanto,
na cidade de tal, seu pai era tal, o seu marido. Quando eu falei no amante
dela, ela falou: “É, eu sou a Dilma mesmo, você sabe mais do que eu”. Dois dias
depois, ela foi designada para percorrer os locais que ela denunciou. O
primeiro que ela denunciou era uma fábrica de bombas que já tinha explodido. E
eu: “ih, essa daí...” A segunda foi um pé-de-chinelo que Deus me livre e a
terceira foi um terrorista que morava com a mãe em um aparelho.
Ela
não entregou ninguém importante (para a organização)?
LIMA: Importante
ela não entregou.
O
sr. achou que ela era “jogo duro”?
LIMA: Eu já
sabia. Ninguém galga uma certa posição numa organização sem ter coragem. Vocês
estão vendo a Dilma aí, o que ela faz. O Lula, com todo o endeusamento, nem
pensou em fazer e ela está fazendo. Então, calma que ela não é, como eu digo,
não é flor que se cheire. Ela é durona. Ela enfrentou o próprio Lamarca e o
Lamarca era meio “tantã”, certo? Podia ter dado um tiro nela tranquilamente. E
ela enfrentou e conseguiu dinheiro, conseguiu armas quando teve a separação da
VAR-Palmares (de Dilma) com a VPR (de Lamarca). As duas organizações se uniram
por um pequeno prazo, acho que uns três meses.
E a
separação maior foi pelo dinheiro do cofre do Adhemar de Barros?
LIMA: O
dinheiro e o armamento. A Dilma exigiu a divisão do dinheiro e do armamento.
Brigar
com os líderes do Congresso hoje é “fichinha” para ela?
LIMA: Sim. Eu
não tenho nada contra ela. Acho que foi uma boa guerrilheira. Agora, dizer que
era boazinha, não, não. Mas não pegou em arma. Isso eu garanto. Eu não
encontrei a mais leve. Para mim, seria ótimo dizer que ela era terrorista. Não
é. Ela pertencia a uma organização subversiva e acabou. Na auditora, ela
declara que não pode aceitar o capitão Maurício Lopes Lima como testemunha
porque ele é um dos torturadores da Oban. Ela declarou isso e mais dois ou três
declararam a mesma coisa. Por favor, foram depoimentos arrumados. Ela disse
várias vezes (em entrevistas posteriores) que eu não a torturei. O direito de
qualquer réu é não criar provas contra si. Isso quer dizer: pode mentir que não
tem problema.
O
sr. está dizendo que Dilma mentiu?
LIMA: Não.
Ela exerceu um direito. É diferente de chamar apenas de mentirosa. Como agora
no julgamento, se for necessário, eu posso exercer esse direito também. Isso é
inerente à Justiça brasileira.
Por
que a presidente disse, em entrevista, que o sr. não “batia bem da bola”?
LIMA: Porque
eu entrava nos aparelhos, aquele negócio, eu não tinha medo. Se me dessem tiro,
eu dava tiro também.
O
sr. matou muita gente?
LIMA: Não,
não matei ninguém.
Nem
em confronto?
LIMA: Em
confronto morreram dois comigo, que são justamente dois casos que estou sendo
acusado pelo Ministério Público, que foram Antonio dos Três Reis e Alceni
(Maria Gomes da Silva). Me disseram que em um aparelho, dentro de um alçapão,
poderia ter um terrorista. Abri o alçapão, saiu um terrorista e me deu seis
tiros. Eu saltei para trás, rolei e saí da linha de tiro.
O
sr. tem as marcas de bala?
LIMA: Nenhuma.
Não acertou nenhuma. Um blog comunista disse que era muito engraçado não ter
acertado nenhuma. É que o "lá de cima" não é comunista. Se fosse,
tinha acertado. Não tenho culpa. Tenho sorte. Virei quase uma lenda de “corpo
fechado” por causa dessas porcarias. Ele descarregou a arma, deu uma paradinha
de uns três segundos, deu mais um tiro e aí o acertaram.
O
sr. estava com colete? Já se usava naquela época?
LIMA: Não se
usava nem colete nem mulher. Se precisasse de uma mulher tinha uma peruca.
Ficavam lindos, de peruca na campana.
O
sr. imagina que vá ser convocado para a Comissão da Verdade?
LIMA: Que verdade? Tem
um livro chamado Direito à Memória e à Verdade feito pela Presidência da
República. Ali só contém mentira. Ali foram coletadas as declarações à auditora
(militar).
E as
declarações feitas sob tortura? Não são mentira?
LIMA: A
defesa de todos é que tinham sido torturados.
E
não foram?
LIMA: Tenho
certeza que muitos não foram. Não vou dizer nomes.
A
presidente Dilma não foi torturada?
LIMA. Não sei,
não sei, não sei.
Não
tinha a cadeira do dragão lá, o senhor nunca viu?
LIMA: Vi,
opa! Mas a cadeira do dragão tem várias coisas. Ela tem por exemplo o intuito
de deixar a pessoa... Uma das defesas da pessoa são os gestos. Estou me
defendendo aqui, estou fazendo os gestos. Quando você prende mãos, a pessoa
fica sem (defesa).
Ah,
coronel, por favor, o senhor acha que era isso que faziam na cadeira do dragão?
Amarrar a pessoa?
LIMA: Muitos
nem se amarravam. Por exemplo, tinha os cubanos, os que fizeram curso em Cuba.
Esses daí não precisava torturar em nada. Com a prisão eles contavam tudo.
Motivo: o curso em Cuba colocava tal medo nas pessoas que, quando o
"cubano" caía aqui, ele dizia: não precisa fazer nada comigo que eu
conto tudo.
Mas
existem laudos médicos que mostram que as pessoas foram torturadas.
LIMA: Sim,
mas quantos? Em 30 mil, quantos?
O
sr. acha admissível a tortura como método de investigação?
LIMA: Eu não,
mas tem várias pessoas que aceitam. Existem várias correntes que dizem que a
tortura para se conseguir as informações é melhor do que deixar de capturar o
terrorista.
Mas
mesmo assim o senhor nunca torturou?
LIMA: Não, eu
não precisava.
O
sr. é acusado também também de ter torturado o Frei Tito.
LIMA: Absolutamente.
Fui ver o Frei Tito ele já com os braços cortados e o levei ao Hospital das
Clínicas. Ele havia tentado se suicidar.
O
sr. se arrependeu de alguma coisa?
LIMA: Não. O
que eu quero que você saiba é que eu não acuso ninguém de mentira. Esse combate
todo é uma mentira.
FEITA POR: TATIANA FARAH
/ O GLOBO

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